
Packbound — A História de Lívia
Eu consigo apontar o momento exato em que minha vida começou a sair do controle. O segundo em que tudo desabou, e eu não sabia mais onde eu me encaixava no mundo. O que antes parecia familiar de repente ficou estranho, e eu fiquei me sentindo completamente perdida.
Tudo começou quando meu namorado encontrou a companheira dele.
Callum e eu estávamos juntos desde que eu tinha dezesseis anos. A gente tinha passado quase um ano como casal, e eu tinha me acostumado a tê-lo ao meu lado. Ele era o filho do Alfa, e nós tínhamos crescido juntos, treinando lado a lado desde que éramos crianças.
Quando eu fiz dezesseis, meus sentimentos mudaram rápido — de amizade para algo mais profundo. Callum tinha dezessete naquela época, e ele seria capaz de encontrar a companheira dele quando fizesse dezenove.
Olhando para trás, eu era tão ingênua. Eu me agarrava a cada palavra dele, completamente convencida de que a gente estava destinado a ficar junto.
Eu me prendi àquele sonho bobo até a festa de aniversário de dezenove anos dele — a noite em que tudo veio abaixo.
Callum me buscou por volta das 8 da noite no Mustang brilhante dele. Eu costumava implicar com ele dizendo que ele amava aquele carro mais do que amava a mim. Sinceramente, tinha muita coisa que o Callum parecia amar mais do que a mim.
Meus pais e meu irmão mais velho não estavam felizes com eu namorar o futuro Alfa. Eles sabiam dos riscos de se envolver com outro lobo, mas eu era nova e teimosa e ignorei todos os avisos deles.
Eu entrei no carro dele sem pensar duas vezes, sem nem notar que ele nem se deu ao trabalho de abrir a porta para mim.
— Eu pensei que eu tinha mandado você usar o vestido azul — Callum suspirou, revirando os olhos. Eu franzi a testa e olhei para o meu vestido preto, sem saber qual era o problema.
— Eu te disse que eu não gostava daquele — ele acrescentou, o tom irritado. Eu franzi a testa ainda mais, me perguntando o que tinha deixado ele de tão mau humor.
— Tanto faz, eu só estou tentando te ajudar — ele disse, dando de ombros. — Você parece alguma gótica de preto.
Eu revirei os olhos para ele, achando que ele ia se animar depois de alguns drinques.
O Callum sempre odiou quando eu usava preto. Ele dizia que me deixava com cara de “gótica”. Eu não via o problema — alguns estilos góticos eram, na verdade, bem fofos. Talvez não ajudasse o fato de eu ter cabelo preto longo e liso.
Ele tinha me dito umas cem vezes que eu ficaria melhor loira, mas eu nunca conseguia me convencer a pintar. Eu era a única na minha família que tinha herdado o cabelo cor de corvo da minha avó.
Eu fiquei quieta enquanto Callum dirigia, ouvindo ele reclamar em voz alta sobre as alcateias vizinhas. Ele sempre tinha alguma coisa para resmungar.
— O Alfa da Alcateia Ironwood está pedindo ajuda — ele disse, passando uma mão pelo cabelo loiro-areia. — Ele arrumou briga com Ember Lake e agora quer que eu tire ele dessa.
Meus olhos se arregalaram.
— A Alcateia Ember Lake? Por que alguém seria burro o bastante para mexer com eles?
A Alcateia Ember Lake tinha uma reputação feroz. Diziam por aí que eles começaram como uma alcateia renegada, mas cresceram rápido sob a liderança do Alfa Rhett. Agora o neto dele estava no comando e, pelo visto, a crueldade era coisa de família.
— Ah, por favor — Callum zombou. — Eles são só mais uma alcateia, e o Alfa deles é só um cara.
— Um cara com território pra caramba — eu murmurei. A Alcateia Ember Lake era enorme — facilmente a maior alcateia que a gente já tinha conhecido.
— Não por muito tempo — Callum sorriu com desdém. As palavras dele me deixaram uma sensação ruim no estômago.
— O que você— — eu comecei, mas ele me cortou.
— Deixa isso. Não é importante. — Ele fez um gesto para eu parar quando a gente entrou no estacionamento da boate. Ele virou para mim com um sorriso torto.
— Isso é o que importa — ele disse antes de me puxar para um beijo.
Eu dei uma risadinha como alguma adolescente apaixonada, me inclinando para ele enquanto borboletas enchiam meu estômago.
— Você finalmente vai dizer sim hoje à noite? — ele perguntou, puxando meu cabelo de brincadeira.
Eu sorri, pronta para dar a ele a resposta que ele estava esperando.
Em só algumas horas, Callum seria capaz de sentir a companheira dele. Por meses, ele tinha me pressionado para dormir com ele, implorando para eu deixar ele ser o meu primeiro. Eu sempre tinha dito não — esperando por esta noite, a noite em que nós oficialmente nos tornaríamos companheiros. Aí, eu me entregaria a ele completamente.
— Eu estou pronta — eu sussurrei, mordendo o lábio e olhando para cima, para os olhos azuis dele.
O sorriso torto dele se aprofundou quando ele me puxou para outro beijo.
— Até que enfim, porra. — Eu ri baixinho do resmungo dele.
Dentro da boate, a gente encontrou nossos amigos. Eu dei o braço para Dahlia, conversando com ela por cima do grave pulsante.
Dahlia era o tipo de garota que as pessoas ou odiavam ou mal toleravam. Mais tarde na vida, eu percebi que eu já tinha sido como ela — superficial, debochada e meio maldosa.
— E aí, vadia — Dahlia sorriu com desdém, jogando o cabelo loiro-mel por cima do ombro.
Eu sorri de volta, encarando o vestido rosa-chiclete dela.
— E aí, você.
Eu me agarrei ao lado do Callum enquanto ele conversava com os melhores amigos dele, Trevor e Bryce. Trevor era o típico babaca — pulando de garota em garota sem vergonha. Ele até já tinha tentado ficar comigo uma vez.
Trevor não acreditava em espaço pessoal e adorava testar limites. Bryce, por outro lado, tinha dezenove anos e já tinha uma companheira, embora ele não parecesse lá muito interessado nela. Mesmo assim ele saía com os caras, fazendo-se lá sabe o quê.
— Pronto pra conhecer sua companheira? — Trevor provocou, mexendo as sobrancelhas para um grupo de garotas humanas passando.
— Espero que ela seja gostosa — Callum sorriu com desdém, olhando para mim enquanto apertava meu ombro. Eu revirei os olhos e dei um tapinha brincalhão nele. Eu olhei para a bebida dele com um pouco de inveja — ele nunca gostava que eu bebesse. Dizia que isso não combinava com a imagem de “namorada perfeita” dele. Então eu me virei para Dahlia.
— Se eu acabar sendo a companheira do Callum, eu espero que você não me odeie — Dahlia piscou, lançando para Callum um olhar malicioso.
Eu revirei os olhos.
— Ah, por favor. Se for pra ser, a sua companheira provavelmente é o Trevor. — Eu caí na risada com a expressão de horror no rosto dela.
— Nem a pau. Já fui, já fiz. Nunca mais — Dahlia gritou, se abanando de forma dramática.
— Eca, você dormiu com ele? — eu fingi ânsia.
Ela revirou os olhos para mim como se eu fosse uma criança.
— Dã. Quem não dormiu?
— Eu — eu sorri. — Eu não dormi.
— Isso é porque a nossa princesinha da pureza está se guardando para o seu único e verdadeiro companheiro — Dahlia cantarolou, cheia de sarcasmo.
— Ciúme não fica bom em você — eu provoquei, mostrando a língua.
Então, do nada, Callum se puxou para longe de mim tão rápido que eu tropecei.
— Que porra é essa, amor? — eu retruquei, assustada.
— Você está sentindo esse cheiro? — eu ouvi ele sussurrar, mais para si mesmo do que para qualquer outra pessoa.
Eu assisti em silêncio, atônita, enquanto o meu mundo inteiro rachava.
Uma garota alta, de pernas longas, saiu do banheiro feminino, os olhos dela se prendendo instantaneamente aos de Callum. Mesmo com a música sacudindo o chão, o ar entre eles ficou silencioso.
— Ah, merda — eu ouvi Trevor dizer, a diversão clara na voz dele, embora parecesse vir de muito longe.
Callum e a garota misteriosa só ficaram se encarando antes de correrem para os braços um do outro como algum filme de romance clichê.
Todo o resto sumiu — a multidão, a música, as luzes. Eu acho que eu vi Trevor rindo e Dahlia sorrindo com desdém, mas Bryce estava tudo, menos divertido.
Meu corpo inteiro tremeu enquanto meu cérebro tentava entender o que eu estava vendo.
Callum tinha encontrado a companheira dele. Meu namorado encontrou a companheira dele — e não era eu.
E então, como qualquer adolescente totalmente racional — eu corri.









