
O Preço do Destino
POV da Nyra
— Olha por onde anda, aberração!
A palavra me atingiu antes do ombro dele.
Meus livros sacudiram. Meu anuário escorregou da minha mão e bateu no chão com um estalo, as páginas se abrindo de repente como se estivessem tentando escapar de mim. O corredor nadava em barulho, risadas, passos, o rangido estridente da porta de um armário, e ainda assim, de algum jeito, aquela única palavra encontrou o centro de mim, como se tivesse um mapa para cada machucado que eu já tinha engolido.
Aberração.
Essa era eu. O erro sem lobo e de origem desconhecida da alcateia.
Robert Wilson passou por mim como se eu tivesse me jogado de propósito no caminho dele. Ele nem sequer parou. Não precisava. Lobos como ele, de sangue puro, fortes como lobos, certos do seu lugar, nunca precisavam parar por garotas como eu.
Eu me abaixei devagar, engolindo a ardência na garganta, e recolhi minhas coisas com mãos cuidadosas. O chão parecia mais frio do que deveria. O ar também. Aquele era o tratamento de sempre. Eu tinha aprendido da pior forma a não esperar nada melhor da alcateia.
— Não dá pra farejar por onde está andando? — alguém murmurou por perto, e algumas vozes riram como se a minha humilhação fosse um petisco que pudessem dividir.
Mantive a cabeça baixa.
Não adiantava discutir. Eu tinha aprendido isso da pior forma.
Discutir fazia empurrarem você. Ser empurrada fazia apanharem de você. E apanhar quando você não tinha lobo não era como apanhar para todo mundo. Lobos se curavam rápido, ossos se remendando, hematomas desaparecendo, a dor virando memória em horas, não em dias. Eu? Às vezes levava semanas. Às vezes levava mais tempo. Eu carregava hematomas velhos como outras garotas carregavam joias.
Aos vinte anos, eu ainda não tinha me transformado.
Sem lobo. Sem reflexos aguçados. Sem cura. Sem força.
Só um corpo que quebrava do jeito que os humanos quebravam.
Algumas pessoas diziam que meu pai tinha sido um renegado amaldiçoado. Outras gostavam mais da história da bruxa, diziam que ele devia ter sido alguma coisa vergonhosa das Terras Exteriores, alguma coisa antinatural que explicava por que eu era... assim. Por que eu conseguia sentir o cheiro da Lua e mesmo assim permanecia intocada por ela.
Eu não acreditava em nada disso.
Eu não ligava.
A única coisa com a qual eu me importava, de verdade, desesperadamente, era a única verdade que a alcateia não sabia.
Eu tinha um companheiro.
Não um companheiro.
O companheiro.
E o destino, com seu cruel senso de humor, tinha me ligado à única pessoa a quem menos era permitido me querer.
Kieran Whitewolf.
O filho do Alfa. O futuro Alfa. O herdeiro de ouro de Vandwood.
O garoto que a alcateia amava.
O garoto que eu amava em segredo.
O garoto que me amava... só onde ninguém podia ver.
Apertei meu anuário contra o peito e continuei andando, tentando ignorar a forma como minhas costelas doíam por causa do empurrão. Hoje era para ser leve. Hoje era para ser um fim que eu conseguisse sobreviver.
Era o dia da formatura.
O último dia em que eu teria um motivo legítimo para pisar na academia sem ser enxotada como uma vira-lata.
Parte de mim estava aliviada.
Sem mais bullying diário. Sem mais armadilhas nos corredores. Sem mais risadas me seguindo como uma sombra.
Mas outra parte de mim... a parte mais suave que eu odiava por existir... lamentava aquilo.
Porque depois de hoje, meu mundo encolheria de novo até os arredores. As cabanas dos párias. As trilhas estreitas entre as árvores. O silêncio cansado da minha mãe. A minha própria solidão.
Uma vida sem amigos e sem lugar para ir ainda era uma vida difícil, mesmo quando você já estava acostumada com isso.
Passei por um grupo de garotas encolhidas perto das janelas, com os cabelos brilhantes e os uniformes impecáveis. Elas já estavam assinando os livros umas das outras, dando gritinhos por causa das lembranças, planejando festas. Quando meus olhos se voltaram para elas, uma delas ergueu o queixo e sorriu com desdém.
— Quem vai assinar o seu, Moonchild? — ela perguntou, alto o bastante para o corredor inteiro ouvir.
Meu estômago se apertou.
Moonchild.
Meu sobrenome.
Um nome que parecia uma bênção até a alcateia colocá-lo na boca e torcê-lo até virar zombaria.
Eu não respondi. Eu não parei. Só abracei o anuário com mais força, mais como um escudo do que como uma lembrança, e continuei andando.
Não adiantava me juntar aos outros.
Ninguém ia assinar meu livro mesmo.
Eu já estava na metade do corredor quando um movimento chamou minha atenção.
Uma figura alta perto do extremo oposto.
Ombros largos. Cabelo escuro. Um andar familiar que meu corpo reconheceu antes que minha mente pudesse acompanhar.
Minha respiração falhou.
Kieran.
Ele não devia estar aqui. Tinha se formado dois anos atrás. Tinha patrulhas, treinamento, reuniões do conselho, um futuro que já estava sendo talhado em pedra pelas expectativas da alcateia.
Mesmo assim, ali estava ele, cortando o corredor como se fosse dono daquilo.
Meu peito se encheu de algo perigoso.
Esperança.
E porque eu estava olhando, porque eu era idiota de esperança, não vi a pessoa entrando no meu caminho até ser tarde demais.
Eu colidi com ela.
Meu ombro bateu contra um corpo rígido. Meu anuário sacudiu contra meu peito. O cheiro me atingiu um segundo depois, perfume doce e caro sobreposto ao poder de lobo.
Beverly.
A bela da academia. A garota sobre quem todos sussurravam que seria a futura Luna, porque ela tinha tudo que uma Luna deveria ter: linhagem, beleza, uma loba formidável e um sorriso polido e afiado o bastante para cortar.
O destino não a tinha escolhido.
O destino tinha escolhido a mim.
— Você é cega? — a voz de Beverly estalou como um chicote.
— Desculpa — deixei escapar na mesma hora, dando um passo para trás. Pedir desculpas já era reflexo, automático, como respirar. — Eu não quis,
Os olhos dela se estreitaram, me examinando como se eu fosse alguma coisa grudada no sapato dela. Então o olhar dela caiu para o livro apertado nos meus braços.
— Ah. — Os lábios dela se curvaram. — Seu anuário.
Minha garganta se apertou. Eu queria continuar andando. Queria chegar à saída e nunca mais voltar. Queria sobreviver ao último dia sem sangrar.
Mas Beverly deu um passo à frente.
— Fico feliz — ela disse, alta e clara — que não vamos mais ter que lidar com a sua cara por aqui.
Alguns alunos se viraram. Alguns diminuíram o passo, farejando entretenimento.
Meu rosto queimou.
Beverly se inclinou para perto, a voz escorrendo doçura. — Aí, agarrada nessa coisa como se importasse. Ninguém vai assinar isso, sabia?
Fiquei olhando para o chão.
— Você está destinada a ficar sozinha — ela continuou — como a vadia da sua mãe.
Algo explodiu em mim, calor e fúria e humilhação, tão afiados que fizeram minha visão embaçar.
Eu poderia ter batido nela.
Poderia mesmo.
Mas eu tinha prometido a mim mesma que sobreviveria hoje. Só sobreviveria.
Então eu engoli.
Ergui a cabeça só o suficiente para falar de maneira firme. — Por favor, saia da frente.
Beverly sorriu como se eu a tivesse entretido.
— Você é burra? — ela perguntou. — Não sabe falar direito? Ou finalmente percebeu que tudo o que temos dito é verdade?
As amigas dela riram atrás dela. O corredor tinha formado um círculo frouxo agora, corpos inclinados para dentro, famintos.
Tentei passar por ela.
Ela não deixou.
A mão dela disparou e me jogou de volta contra os armários.
O metal bateu na minha coluna com um baque brutal. A dor explodiu pelas minhas costas. Eu arquejei, o ar saindo dos meus pulmões num jato áspero.
E foi isso.
O momento mudou.
Eu vi nos olhos dela, ela não ia me deixar ir embora. Não hoje. Não no meu último dia. Ela precisava marcar aquilo. Precisava me mandar embora com um hematoma de que a alcateia pudesse se lembrar.
Afastei-me do armário, minhas mãos tremendo, meu coração martelando tão forte que fez meus ouvidos zunirem.
Dei um soco.
Lento demais.
Malditos reflexos humanos.
Beverly desviou com facilidade e enfiou o punho no meu estômago.
Uma dor incandescente me rasgou. Eu me dobrei com um som estrangulado, a bile subindo rápido. Tossi, engasgando, sentindo um gosto azedo e metálico.
Ela agarrou meu ombro e me empurrou para baixo.
Meus joelhos bateram no chão. O corredor se inclinou. As risadas cresceram como uma onda.
— Fica no chão, Moonchild! — alguém gritou, como se estivesse me dando um conselho útil.
Eu deveria ter ficado no chão.
Teria sido inteligente.
Mas alguma coisa em mim, alguma coisa teimosa e tola, se recusou.
Eu me ergui, tremendo, a respiração irregular.
A bota de Beverly acertou minhas costelas.
A dor explodiu tão forte que roubou minha visão por um segundo. Caí de novo, o ar saindo de mim num chiado.
Risadas.
Outro chute.
Tentei me levantar.
Outro chute.
Meu corpo gritava. Meus pulmões queimavam. Minha boca se enchia de sangue.
Mesmo assim, forcei meu corpo a se erguer, lágrimas ardendo nos meus olhos, não de fraqueza, eu disse a mim mesma, mas de dor. Da pura traição do meu próprio corpo.
Ninguém ajudou.
Instrutores passaram pelo fim do corredor e desviaram o olhar. Alunos assistiam como se aquilo fosse normal, como se fosse tradição, como se fosse o que o sangue de pária merecia.
E então ouvi a voz dele.
— Para, Beverly.
Kieran.
O som dele atravessou meu corpo como uma flecha, afiado, direto no coração.
Beverly congelou no meio do movimento, o pé pairando no ar como se estivesse decidindo se conseguiria dar mais um chute antes de obedecer.
Ergui a cabeça, a visão embaçada, e o vi entrando no círculo.
Alto. Imponente. Bonito do jeito que os lobos eram bonitos, perigosos e adorados.
O alívio me inundou com tanta força que quase me deixou tonta.
Ele está aqui.
Ele viu.
Ele vai, ,
— Você está tentando matá-la? — Kieran perguntou, a voz marcada pela raiva.
Por um momento, achei que a alcateia fosse mudar. Que o ar fosse mudar. Que alguém finalmente fosse lembrar que eu era uma pessoa.
Beverly soltou um som de desprezo. — Ela não sabe qual é o lugar dela.
Kieran se aproximou. Eu só conseguia ver claramente as pernas dele de onde eu estava caída, mas eu conseguia senti-lo, o cheiro dele, a presença dele, a forma como meu corpo inteiro reagia como se ele fosse a única coisa real na sala.
Ele se abaixou.
A mão dele se fechou em volta do meu braço.
Gentil.
Tão gentil que doeu mais do que os chutes.
Ele me ajudou a levantar, e meu corpo se inclinou na direção dele automaticamente, desesperado por apoio, desesperado pelo único lugar seguro que eu já tinha conhecido.
Estendi a mão para ele.
E ele se afastou.
Não com violência.
Não com nojo.
Só... rápido. Preciso. Como um homem se lembrando de onde estava.
Beverly riu, aguda e brilhante. — Você não devia tocar nisso, Kieran. Vai pegar alguma coisa.
Mais risadas vieram em seguida, cruéis e satisfeitas.
Olhei para ele através de lágrimas que eu não conseguia mais segurar, lágrimas de dor, lágrimas de humilhação, esperança morrendo em tempo real.
Kieran não olhava para mim do jeito que olhava para mim à noite.
Ele não tocou meu rosto.
Ele não disse: Ela é minha.
Ele não disse: Parem.
Ele não disse nada que expusesse o que éramos.
Em vez disso, ele disse, seco e controlado, — Vá para casa.
Duas palavras.
Não Nyra.
Não Você está bem?
Não Me desculpa.
Só: Vá para casa.
Então ele se virou e foi embora como se eu fosse uma estranha.
Como se ele só tivesse interferido para parar uma confusão.
Como se não tivesse me beijado no escuro e me prometido para sempre.
As risadas o seguiram como aprovação.
Fiquei ali, cambaleando, com sangue na língua, meu anuário amassado contra o peito, meu corpo pulsando de dor, meu coração se partindo em silêncio onde ninguém podia ver.
E me perguntei, realmente me perguntei, pela primeira vez em quatro anos...
Até quando ele ia continuar fingindo?
Até quando ele ia continuar me amando nas sombras e me abandonando à luz do dia?
Porque ele não tinha me rejeitado.
Ele tinha me mantido.
Tinha ficado comigo.
Tinha tomado pedaços de mim por quatro anos e os guardado nos lugares secretos dele.
Então eu não entendia.
Eu não entendia mais nada.
Saí cambaleando do corredor com as pernas trêmulas, e o único pensamento ao qual eu conseguia me agarrar, a única coisa que me impedia de desabar completamente, era o próprio vínculo.
A Lua não comete erros, eu disse a mim mesma.
O destino não une almas por nada.









